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Glamour e prestígio para todos os pacientes e cirurgiões

Por Trajano Sardenberg*

Diego Gracia, médico e bioeticista espanhol, ao analisar o Juramento Hipocrático, lembra que os primeiros médicos hipocráticos eram cirurgiões originados da medicina artesanal e, ao adquirirem prestígio na sociedade, a ponto de ombrearem com os filósofos e literatos, trataram logo de renunciar a tudo que lembrava sua história anterior. A primeira vítima foi a prática cirúrgica, que acabou condenada no Juramento Hipocrático, com especial ênfase para o cálculo renal. E assim, os cirurgiões permaneceram na situação de práticos, sem o glamour dos novos médicos.

O dicionário Houaiss define a palavra “glamour” como atração, charme pessoal, encanto, magnetismo, feitiço, encantamento, magia. Quem alcança o glamour na sua vida, a ele se agarra (com a honrosa exceção dos verdadeiramente humildes). Os médicos hipocráticos, filhos dos antigos cirurgiões práticos, atingiram o glamour na sociedade grega e cuspiram no prato que comeram: negaram a cirurgia, que deveria agora ser realizada pelos práticos.

As condições do exercício da cirurgia na época do Hipócrates, que viveu no século V antes de Cristo, sem anestesia e as técnicas de antissepsia, dificilmente poderiam acarretar prestígio para seus praticantes. Uma cirurgia com muita dor e grande possibilidade de infecção dificilmente poderia dar prestígio e glamour para o médico. A exceção talvez seja o médico e cirurgião romano Claudio Galeno, que viveu no século II depois de Cristo, provavelmente por sua grande cultura filosófica e enorme produção de conhecimentos de anatomia e fisiologia.

Os bons ventos para os cirurgiões e, principalmente para os pacientes, começaram a soprar nos EUA e no Reino Unido no século XIX. Crawford Long, médico americano, iniciou a anestesia para cirurgia em 1842 e Joseph Lister, em 1865, desenvolveu e aplicou as técnicas de antissepsia: foi o começo da era de ouro da cirurgia, sem dor e sem infecção! A estrada foi aberta e a medicina cirúrgica e seus médicos emergiram do lodo dos práticos e bárbaros e passaram a ombrear com os clínicos.

A cirurgia é um campo enorme e, rapidamente, algumas áreas foram ao céu e outras ao limbo ou mesmo ao inferno. Os médicos que realizavam procedimentos cirúrgicos para tratar as pessoas com doenças venéreas não conseguiram o glamour da sociedade; o mesmo ocorreu com os obstetras e ortopedistas, verdadeiros parias da cirurgia.

As especialidades do lodo precisaram lutar muito, por meio do aumento do conhecimento e melhoria dos tratamentos para, lentamente, obterem prestígio e glamour na sociedade. Contudo, esta luta ainda não chegou ao fim.

Na sociedade contemporânea, tudo que é muito não vale nada ou quase nada. Tudo que é muito pode até despertar o ódio. Os seres vivos que se adaptam ao ambiente e se multiplicam espetacularmente passam a ser chamados de pragas. Os pombos das cidades são uma praga. Os cupins não valem nada. E se a espécie for de outro local geográfico, não nativa, leva o nome de praga invasiva.

As fraturas do úmero proximal, do rádio distal, do fêmur proximal e do tornozelo estão associadas à osteoporose e, consequentemente, à maior idade das pessoas. Em qualquer país há muitas pessoas que sofrem estas fraturas e, o melhor tratamento, na maioria das situações, é cirúrgico. Enfim, são uma praga! E essa praga vem acompanhada de outra, os inúmeros pacientes com outras fraturas do esqueleto. Muitos pacientes precisam de cirurgias e não podem esperar muitos dias para serem operados. A questão é que quanto mais cedo são operados, menos complicações. A equação de “muitos pacientes e poucas vagas para operar nos hospitais públicos” não se resolve sem sequelas. Quando o paciente é morador de uma região geográfica muito longe do hospital, é ainda chamado de invasor. É a verdadeira praga invasora.

Definitivamente, no sistema público de assistência médica, os pacientes com fraturas e os médicos que os tratam não tem glamour: faltam leitos para internar e horários para operar e o pagamento é muito ruim. E mais: para esses pacientes serem internados e operados ocorre, às vezes, uma batalha e até brigas entre os médicos e os gerentes dos hospitais. O tratamento das fraturas não está em nenhum programa especial do Sistema Único de Saúde. O SUS tem programas que recebem atenção especial, como transplantes de órgãos, diálises e outros: todos recebem mais dinheiro, que não entra no bolo geral; são chamados de extra teto. O resto, os do teto, fica no bolão de tudo. Os comuns. Os mortais.

Praticamente todos os dias há pacientes com fraturas sendo operados, curados e recebendo alta hospitalar. Mas essas histórias não saem nas mídias sociais. Não há vídeos com os médicos explicando a cirurgia, com os pacientes contando o seu sofrimento e redenção, agradecendo o tratamento. Não há entrevistas nas TVs. É tudo rotina e muito. Não há glamour e nem prestigio para ninguém!

Por uma questão de justiça, aquilo que é muito, precisa ser feito e é feito com muita dedicação, esforço, técnica e arte e merece toda consideração do mundo. O paciente com sua fratura e os médicos que os operam merecem todo o apoio, prestígio e glamour da sociedade.
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*Trajano Sardenberg é médico, especialista em Ortopedia e Traumatologia, professor da Unesp e vice-diretor presidente da Famesp.